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. Postado por Sil em 5:35 PM Eu quero falar: DA PÁSCOA À EDIÇÃO
O engraçado é que eu não tenho praticamente nenhuma lembrança pascal oitentista pra compartilhar. Lembro dos ovos de páscoa. Ovo de páscoa pra mim era algo agoniante. Porque eu não era muito ligado em chocolate, mas a embalagem e o sorriso generoso da minha mãe sempre me convenciam a comer. E eu ia tirando lascas, geralmente pequenas, e chegava uma hora que eu não güentava mais. O único prazer que um ovo de chocolate me dava era tirar lascas das arestas internas dele. Iam se formando aquelas lascas dentro da metade oca do ovo, e tal. O chato é que pra não desperdiçar as lascas eu tinha, obviamente, que engoli-las. E engolir chocolate é um troço muito chato numa cidade como o Rio de Janeiro. Já faz um calor infernal aqui fora, e o chocolate acaba fazendo você sentir calor por dentro. Como não é diferente da maior parte do território brasileiro, defendo que a páscoa seja transferida pra julho. Assim: o pessach e a páscoa católica que respeitem a quaresma. Mas a páscoa comercial que crie uma centesma, pra empurrar o chocolate pra frente no calendário e descer mais redondo na garganta. Que sempre sofre no inverno. A maior falta que sinto da páscoa oitentista é ver "Easter Parade". Traduzido espantosamente pro português correto, "Desfile de Páscoa" é uma produção de 1948, auge do auge da MGM (Metro Goldwyn Mayer) com dois dos maiores salários do mundo artístico da época: Judy Garland e Fred Astaire. E pasmem, mais anunciado do que os nomes dos dois ou do pobre diretor (ninguém lembra do Charles Walters), era o nome do compositor Irving Berlin. A importância do sujeito era tamanha a ponto do cartaz anunciar "Irving Berlin's Easter Parade"! Não à toa: o filme foi todo escrito com base nas músicas já existentes desse gênio, que viria a morrer com a bagatela de 101 anos em 1989. Ou seja, quando eu via o filme na Manchete em 1987, o sujeito continuava vivo! O esquema era o seguinte: na era da TV aberta, quando TV a cabo era algo que só chegava ao conhecimento dos brasileiros através de menções incompreensíveis em filmes hollywoodianos ("TV com cem canais? Rá rá, que bizarro"), a saudosíssima Manchete, entre 1986 e 1988 (ou talvez além disso, mas não acompanhei depois), tinha uma das raras sessões legendadas na telinha. Todo sábado à noite. Assim tipo umas onze horas, se não me engano. Desgraçadamente não consigo lembrar o nome da sessão, mas as legendas eram inesquecíveis. Brancas, sem qualquer espécie de sombra, com uma fonte pequenininha e esquisitíssima, direto na tela. E com um detalhe agoniante pra quem precisava delas: a cada fala, as letras da legenda iam aparecendo uma após a outra na tela até completarem o texto da fala. E em seguida desapareciam todas de uma vez. E em seguida voltavam de novo, no mesmo esquema, uma por uma. Claro que elas apareciam em alta velocidade pra dar tempo de terminar a fala antes que chegasse outra. Ainda assim, era mais devagar que a sua velocidade de leitura. Ou seja, existiam décimos de segundos de diferença entre você terminar de ler e as próximas letras aparecerem. O que, obviamente, atrasava a leitura e prejudicava a absorção do filme. Mas era o máximo. Meu pai anunciava solenemente, entre risos: "Hoje tem de novo 'Easter Parade'! Com som 'óriginálvel' e legendasss!" E começava a cantar, imitando primeiro o Fred Astaire e depois o Al Jolson (que não aparece no filme): "And my heart beat faaast... / As I came through the door / Fooooor (aí começava o Al Jolson): In your Easter bonneeet / With all those frills upon iiiiit / You'll be the grandest lady / In the Easter parade / I'll be all in clawvaaah / And when they look us ovaaah / We'll be the grandest couple / In the Easter / P'RAAAADE!" (notem que não é necessariamente esta a letra. Era só a maneira como meu pai cantava) Ele gravava as músicas. Deixava o rádio-gravador do lado da TV e, quando começava o diálogo (que ele sabia de cor, ou quase) que dava início a uma música, pedia silêncio e começava a gravar. A fita ficava cheia de TEC no final das gravações, mas ele não se importava. Eu sim. Hoje me dou conta que é graças a isso que sempre me amarrei em edição de vídeo e som. Graças a esse ritual do papai, aos 11 anos eu comecei a gravar os últimos capítulos de todas as novelas em gravador (lá em casa o videocassete só chegou em 29/12/87). Só que um capítulo inteiro de novela não cabia nos 30 minutos da fita, e nem sempre minha mãe dava grana pra comprar uma fita de 90 minutos (além do quê, dizem que a de 90 fica apertada demais na bobina). Então eu fazia tudo pra suavizar o TEC e pra cortar as cenas de forma que quem ouvisse o capítulo conseguisse entender tudo como se estivesse assistindo na íntegra, pois o que fosse cortado não faria falta. E como eu fazia isso? Via o último capítulo na sexta, decorava (nem pensava em anotar) os pontos onde poderia cortar, e no sábado lá ia eu pro lado da televisão, desesperado, pedindo silêncio pra todo mundo, numa tensão e atenção singulares. Ficava especialmente preocupado com o Ramiro, meu irmão, que chegou algumas vezes a me chantagear pra conseguir coisas que ele queria, ameaçando fazer barulho na hora de uma gravação minha. Mas em geral ele era tranqüilo. Minha avó talvez ficasse meio incomodada porque ela adorava comentar. Mas eu olhava pra ela com uma cara de censura e medo, e ela colaborava com meu esquema, ficando quietinha. Só às vezes, quando eu dava o stop, ela ouvia o TEC e movia os lábios perguntando se podia falar. E eu dizia que sim. Saudade dela. :) A partir de 1987, eu comecei a fazer fitas de músicas saídas da TV, tipo meu pai. Mas pra não ter o TEC entre elas, eu entrava no banheiro e gravava um fundo sonoro neutro entre elas. Na época eu só chamava de "espaço" (ex.: "Mãe, faz silêncio que eu vou gravar um espaço"). Entrava no banheiro, dava stop no ponto exato onde ia gravar e gravava um "nada", cobrindo a abertura do microfone embutido. Via que ainda tinha sobrado um pouco do que eu queria desgravar, voltava a fita e dava outro stop um pouco antes. E assim por diante, até desgravar o último pentelhésimo sonoro que eu não queria, com cuidado cirúrgico pra não desgravar nem um segundo do final da música que vinha antes. Só que, como eu tapava o microfone embutido pra gravar o espaço, o tal "fundo sonoro neutro" acabava saindo tipo um barulho muito parecido com a respiração do Darth Vader na hora em que ele expira - como se fosse uma expiração contínua (algo MEIO assim: "RÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ...") E quais músicas eu gravava? Bem, lembro de uma fita TDK (era precioso ter uma TDK, eu contava nos dedos as minhas) que eu usei pra isso porque disseram que era um absurdo eu gravar vozes (que era o que eu mais fazia) numa fita de qualidade superior. Então lá fui eu gravar música. Só que do meu jeito: músicas do primeiro filme dos Muppets (morro de vergonha, mas gravei duas músicas dubladas); "Black Magic" cantada pelo Jerry Lewis em "O Professor Aloprado"; "We Don't Have to Work", pelos três ratinhos que se fingiam de cegos naquele desenho dos anos 40 que acho que era da Looney Tunes; "Guaraná-Antarctica-é-puro-e-natural, puro-guaraná-Antarctica-que-é-puro-e-natural!"; trilha do comercial do Villejack Jeans; e por aí ia. E foi assim, graças à páscoa, que eu nutri e formei um dos meus sonhos profissionais que vão se acumulando: trabalhar com montagem de som ou imagem, em cinema. Mas até hoje, acabei nunca concretizando. Acho que é porque eu não ia querer nenhum diretor mandando em mim. Muito pelo contrário. :D Postado por Luiz com Z em 7:36 PM Eu quero falar: |
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