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No momento, pessoas matam a saudade dos anos 80.


5.4.08




5/4/2008 - VINTE ANOS DE TV PIRATA


Cláudio Paiva, redator final; Beto Silva, redator da Casseta Popular; Reinaldo, redator do Planeta Diário; Débora Bloch, Natália Barbosa; Luiz Fernando Guimarães, Reginaldo Nascimento. Foto de Ricky Goodwin, em 23 de março de 2005, na Casa de Cultura Laura Alvim.

Por volta das 21:30 da terça-feira 5/4/88, depois de um ano e meio de registro da marca, e de um parto de nove meses de planejamento, negociações e brigas que quase acabaram com o formato, estreava "TV Pirata".

O resto ficou na história. E em vídeos. Muitos vídeos:

1- TV Pirata - Paródias de comerciais de 1988

2- Flanelinha multitarefa

3- Guia de Recolhimento

4- Paródia de "A Praça É Nossa"

5- Aeromoça Carente - Luis Fernando Verissimo

6- Barbosa Nove e Meia

7- TV Pirata - paródia do comercial do Presunto Sadia

8- Casal Telejornal

9- Faça Feio - a revista da mulher sem jeito

10- As Presidiárias

Postado por Luiz com Z em 6:11 PM

Eu quero falar:


13.2.08


Este Ano 80 invertido já começa trazendo frutos de fina flor. Pela primeira vez, o Saudade dos 80 reproduz um texto convidado. Zanzando pela web, Luiz com Z descobriu uma crônica impagável da cartunista curitibana Pryscila (com Y), outra criança oitentista legítima e juramentada.

Ela ilustra perfeitamente o que aconteceu com muitos integrantes da nação cinéfila em sua última década de ingenuidade: a de 80. Em pleno boom do videocassete, já um tanto alta pra seus parcos anos de idade, Pryscila Vieira rumou pela primeira vez a uma locadora pra fazer sua primeiríssima locação de fita VHS e...


HISTÓRIAS QUE NOSSAS BABÁS NÃO CONTAVAM
Pryscila Vieira, 6/12/2007





Lá pelo inicio da década de... (deixa para lá) meu pai partiu a machadadas seu porco de barro para comprar um vídeo-cassete. Feliz da vida dirigi-me a uma locadora para pegar meu primeiro VHS. E primeiro VHS é como o primeiro sutiã: você nunca esquece. Minha única exigência era que o filme não fosse legendado pois eu nem era completamente alfabetizada ainda. Por conta disso, não desembaralhei o amontoado de letras da sinopse do filme que loquei na intenção de assistir a um desenho animado, visto que a capa era um belo desenho... E bem animado. Resultado: meu primeiro VHS foi "Histórias que nossas babás não contavam", uma pornochanchada de 1979 em que Branca de Neve foi interpretada por uma das ex-mulatas de Sargentelli, a bela Adele Fátima. O príncipe encantado era ninguém menos do que o Costinha. Os sete anões eram... Os sete anões mesmo. Hoje, sei ler um pouquinho melhor, e descobri que a sinopse do "Histórias que nossas babás não contavam" dizia o seguinte: "Sátira do conto de Branca de Neve, em que os sete anões mostram ao príncipe encantado que tamanho não é documento."

Assisti ao filme na companhia de minha irmã, um ano mais "velha". Enquanto isso, mamãe passava roupa, impressionada com o préstimo do novo eletrodoméstico. "As crianças ficam quietinhas!" pensava ela. Pudera... Até o Taz ficaria imóvel assistindo a uma fogosa Branca de Neve afro-descendente, sete anões afoitos e alguns banquinhos cambaleantes.





"Naquela época" em que uma criança podia locar filme pornô e a turma do Balão Mágico era aplaudida por atirar de trezoitão em ararinha azul, eu comprava uísque e cigarro para meu pai. E para que eu não passasse vontade, papai comprava um guaraná, para que parecesse meu uísque e uma caixa de cigarrinhos de chocolate da Pan.

O mundo era politicamente incorreto, sim... mas muito mais divertido! Superfantástico... ah! O Balão Mágico!





* Antes que algum desocupado que se diga politicamente correto venha reivindicar meu maior cuidado com as palavras, vou logo avisando:
- Nenhum animal foi sacrificado para que estes parágrafos fossem escritos.
- Hoje eu não fumo e não bebo (muito) como vocês devem estar pensando. Meu pai é que foi proibido de beber e de fumar pelos médicos.
- Não sou praticante de orgias sexuais com anões indefesos por influência de Adele Fátima. Não precisa prender a moça.
- E não. Não acho que na "época dos militar" a situação era melhor... Antes que coloquem palavras na minha boca.

Postado por Pryscila Vieira, diretamente do Niu Iórqui Táimes.

Fonte: www.pryscila.com.br
Contato: pryvieira@yahoo.com.br


Ilustrações:
Pryscila (www.pryscila.com.br)
Benício (http://documentariobenicio.blogspot.com)
Cigarrinhos Pan (www.chocolatepan.com.br)


Nota do blogueiro:
Talvez Pryscila nem imaginasse que, pouco mais de uma década depois, viveria da mesma fonte de renda que o responsável pelo cartaz que ensejou todo o episódio: o artista plástico Benício - na humilde opinião deste oitentista, o maior pintor publicitário e de cartazes cinematográficos da história desse país
.

Postado por Luiz com Z em 3:10 PM

Eu quero falar:


1.2.08


Medo. Muito medo. Era o que eu e mais uma pequena grande galera sentimos durante meses desde meados de 1984, sempre que entrava aquela chamada misteriosa (que dez anos mais tarde eu saberia que se chama "teaser", no jargão publicitário). Nenhuma locução, nenhuma explicação ou orientação de qualquer espécie. Só a trilha sonora de aventura, um pseudo-caubói sem rosto fazendo estripulias num cavalinho e no final, pra minha surpresa e horror, um pseudo-caubói sem rosto em NEON! "BETO CARRERO!" AAAAAAHHHHH!!!



A cena se repetiria toda noite de domingo, por volta das 19h50, nos estertores de cada edição do lendário programa dos Trapalhões. Em julho de 1985, estreou "Os Trapalhões no Reino da Fantasia". Finalmente todos descobrimos o rosto de Beto Carrero, mas ainda sem ter muita idéia do que se tratava. Mais alguns meses de participações e merchandising no programa de TV e todos já nos acostumaríamos com o garoto-propaganda de sorriso empresarial muito bem calculado.

Ontem à noite, uma chicotada cardiogênica num bombeamento cardíaco acabou com o sorriso, com a fortuna, com a capacidade empresarial, com tudo, deixando só um grande luto e um grande espólio. Moral da vida: se aos 9 anos de idade a gente soubesse que o que mata não é mistério, mas a ignorância e a incompetência, a infância não teria muita graça. Mas no fim das contas, mistério, ignorância e incompetência são primas na grande família da desinformação e desatenção.

Lamentos à parte, se existir outra dimensão de existência, só espero que não exista aquele neon por lá, a não ser que seja pra aterrorizar quem merece no purgatório. Neste mundo, fica especialmente a saudade da paródia do TV Pirata, que mostrava uma velhinha no lombo dum cavalo num dia ensolarado sobre um gramado verde, empinando o animal; nessa hora a imagem congelava e um corinho tosco cantava "Tônia Carrerooooo...", a imagem descongelava, o cavalo relinchava, voltava com as patas pro chão e a velhinha caía do cavalo - ao pé da letra.

_____________________________________________________________________________________________________

Empresário Beto Carrero morre aos 70 anos em SP
Sex, 01 Fev 2008, 03h51



Morreu, aos 70 anos, no final da noite desta quinta-feira, João Batista Sérgio Murad, o empresário que ficou conhecido no país inteiro pelo pseudônimo de Beto Carrero. Ele estava internado há dois dias no Hospital Sírio-Libanês, na capital paulista.

Segundo a assessoria de imprensa do hospital, o paciente morreu vítima de choque cardiogênico, causado por insuficiência no bombeamento cardíaco. O óbito ocorreu no momento em que Beto era submetido a uma cirurgia. O corpo do empresário será velado até as 11h de hoje no hospital e depois seguirá para a cidade de Penha (SC), onde ocorrerá o sepultamento.

O empresário nasceu em São José do Rio Preto, interior de São Paulo. Tornou-se fã de cowboys americanos após freqüentar inúmeras matinês de cinema aos domingos. Depois de alguns anos no interior, Sérgio Murad partiu para a capital paulista, onde passou a vender anúncios para grandes jornais e revistas do país. Foi vendendo anúncios que começou a construir seu patrimônio.

Postado por Luiz com Z em 10:30 AM

Eu quero falar:


27.12.07


MENSAGEM REVEILLÔNICA OITENTISTA

DANE-SE ESSE SÉCULO XXI. SE ELE NOS DÁ UM ANO 08, VIRAMOS DE CABEÇA PRA BAIXO E FAZEMOS UM NOVO ANO 80!

FELIZ NOVO ANO 80 PRA TODO MUNDO!

A Administração

Postado por Luiz com Z em 12:10 AM

Eu quero falar:


13.9.07


SAUDADE DOS 80 DE LUTO
(E IRONICAMENTE, NÃO SEI MEXER NO LAYOUT - CRIADO PELA MINHA AMIGA SILVANA - PRA DEIXAR TUDO ISSO PRETO, MAS COMO DIZ DALTONY, "USE A IMAGINAÇÃO")


13/09/2007 - 16h17
Vítima do câncer, Pedro de Lara morre aos 82 anos no Rio
da Folha Online

Pedro de Lara, ex-jurado do apresentador Silvio Santos, morreu nesta quinta-feira (13), aos 82 anos, no Rio, informou o SBT. Ele estava com câncer de próstata e se recusava a fazer tratamento. Lara chegou morto à clínica Climed, no bairro de Irajá (zona norte do Rio), por volta do meio-dia.

Ele nasceu no dia 25 de fevereiro de 1925, na cidade de Bom Conselho, em Pernambuco. Pedro de Lara ficou famoso na TV por carregar flores e pela fama de turrão. Também radialista, ele participou como jurado de atrações musicais em outros programas popularescos.

No começo de sua carreira, ele trabalhou como jurado com Chacrinha, que morreu em 1988. Lara também fez o personagem Salsi-fufu no programa do Bozo, identificado como um estressado da turma. Pedro de Lara tinha uma carreira de quase quatro décadas na TV. Casado com Mag de Lara, também era escritor, astrólogo e cantor.

Ele também integrou elenco de pornochanchadas nos anos 70 e 80, em produções com nomes curiosos como "Emoções Sexuais de Um Cavalo" (1986), "A Máfia Sexual" (1986), "Bonitas e Gostosas" (1979), "As Taradas Atacam" (1978) e "As 1001 Posições do Amor" (1978).

Não foram divulgados ainda o horário e o local do velório. Os familiares estão ainda cuidando dos detalhes do sepultamento.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u328207.shtml


"O QUÊ? SÓ ISSO SOBRE A MINHA PESSOA?"



Pra não dizerem que este post é puro control-cê-control-vê, fica aqui o depoimento exclusivo do cineasta Cláudio McDowell, colhido em maio de 2006, sobre a antológica seqüência de créditos iniciais da sua comédia "Quando as Mulheres Querem Provas", produzida e estrelada pelo mestre Carlo Mossy em 1974/75:

"A gente tinha pedido só pra ele [Pedro de Lara] dar uma corrida na praia. Aí ele pegou e começou a fazer AQUILO. E o câmera olhando pra mim, eu disse: 'Deixa rolar'."

Resultado: no início do filme, Pedro de Lara corre de frente, de costas, mexia com os braços, pulava, com os cabelos encaracolados desgrenhados ao vento. Enquanto isso, uma constelação do cinema brasileiro, destacando-se o próprio Mossy, Rossana Ghessa, Henriqueta Brieba, Rodolfo Arena e Fernando José, têm seus nomes estampados sobre a então paradisíaca praia de Vila Velha, Espírito Santo, onde se passa todo o filme (com exceção da seqüência final, rodada e passada em Copacabana). A cena antológica pode ser conferida em imagem restauradíssima no DVD recentemente lançado pelo próprio Carlo Mossy. Para maiores informações, basta contatar Mossy em seu perfil de Orkut.


"ISTO É UMA POUCA-VERGONHA! EU NÃO MORRI! EU VOU VENCER! EU TENHO QUE VENCER! [olhando pro seu inseparável buquê] NÓS... EU E VOCÊ. NÓS VAMOS VENCER ESTA BATALHA!"




Tá, as frases não eram exatamente essas. O fato é que quem tem o mínimo de consciência histórica relativa ao imaginário brasileiro sabe que ele já tinha vencido essa batalha há mais de trinta anos.

Postado por Luiz com Z em 6:10 PM

Eu quero falar:


27.7.07


HOJE, 58 ANOS DE DALTONY NÓBREGA!
(pra quem não sabe, grande compositor de MPB e autor de grandes sucessos oitentistas, como "Use a Imaginação" e "Sopa de Jiló", do antológico "Plunct Plact Zuum", 1983, além de várias músicas imortalizadas pelo Fofão)

Para cantar com a melodia de "Use a Imaginação":

- Vem comer brigadeiro!
- Não.
- Vem ver o povo inteiro!
- Não.
- Vem cá ganhar presente!
- Já disse que agora não.
- Não?
- Nã-nã-nã-nã-nã-nã-não!

- Vem cá dar um abraço!
- Não.
- Vem cortar um pedaço!
- Não.
- Vem apagar a vela!
- Já disse que agora não.
- Não?
- Nã-nã-nã-nã-nã-nã-não!

- Por que logo esse ano
Quebra a tradição?
É o seu dia! Qual seu plano?
- Eu e o meu violão.

- Veja bem, não se aborreça,
É boa intenção.
Ponha isso na cabeça!
- Ponho no meu violão.

Eu sei que sou querido, não?
Não?
Ninguém fique sentido em vão,
não.
Já vou ver a família,
Mas deixe ouvir o violão.
- Nã-nã-nã-nã-nã-nã-não!

_____________________

Com os cumprimentos, homenagens e parabenevides do discípulo versejador
Luiz com Z.

Postado por Luiz com Z em 2:25 AM

Eu quero falar:


20.6.07


RI EM PRIMEIRO QUEM RI MELHOR

Emocionante, diretamente da assessoria de imprensa da Rede Record:

19/jun/2007

Pica-pau na liderança

No horário das 10h58 às 12h55, A Turma do Pica-pau ficou com 9 de média, 11 de pico e 24% de share. Durante 18 minutos ficou no primeiro lugar da audiência.

Fonte:
http://www.rederecord.com.br/imprensa/press_releases_exibe.asp?c=4767

REDE GLOBO... HÊHÊHÊ-HÊ, HÊHÊHÊ-HÊ, HÊ-HÊ-HÊ-HÊ-HÊ-HÊ-HÊ-HÊ!

Postado por Luiz com Z em 3:20 PM

Eu quero falar:


5.4.07


O PLANTÃO DA FARMÁCIA CENTRAL INFORMA:


Só pra alertar que este blog mantém-se em estado vegetativo com a ajuda de aparelhos, informamos que nesta solene data o programa TV Pirata apaga dezenove telinhas, tendo nascido portanto no glorioso Cinco de Abril de Mil e Novecentos e Oitenta e Oito.

Dada a falta de tempo dos enfermeiros e médicos oitentistas que abandonaram o plantão, voltamos ao nosso estado de coma normal.

Voltaaamos aaa qualqueer momennto com mais ummm Boletimmmm Uuuuurgenteee.
(sonoplastia de máquina de escrever)

Postado por Luiz com Z em 1:07 AM

Eu quero falar:


14.4.06


DA PÁSCOA À EDIÇÃO

O engraçado é que eu não tenho praticamente nenhuma lembrança pascal oitentista pra compartilhar. Lembro dos ovos de páscoa. Ovo de páscoa pra mim era algo agoniante. Porque eu não era muito ligado em chocolate, mas a embalagem e o sorriso generoso da minha mãe sempre me convenciam a comer. E eu ia tirando lascas, geralmente pequenas, e chegava uma hora que eu não güentava mais. O único prazer que um ovo de chocolate me dava era tirar lascas das arestas internas dele. Iam se formando aquelas lascas dentro da metade oca do ovo, e tal.

O chato é que pra não desperdiçar as lascas eu tinha, obviamente, que engoli-las. E engolir chocolate é um troço muito chato numa cidade como o Rio de Janeiro. Já faz um calor infernal aqui fora, e o chocolate acaba fazendo você sentir calor por dentro. Como não é diferente da maior parte do território brasileiro, defendo que a páscoa seja transferida pra julho. Assim: o pessach e a páscoa católica que respeitem a quaresma. Mas a páscoa comercial que crie uma centesma, pra empurrar o chocolate pra frente no calendário e descer mais redondo na garganta. Que sempre sofre no inverno.

A maior falta que sinto da páscoa oitentista é ver "Easter Parade". Traduzido espantosamente pro português correto, "Desfile de Páscoa" é uma produção de 1948, auge do auge da MGM (Metro Goldwyn Mayer) com dois dos maiores salários do mundo artístico da época: Judy Garland e Fred Astaire. E pasmem, mais anunciado do que os nomes dos dois ou do pobre diretor (ninguém lembra do Charles Walters), era o nome do compositor Irving Berlin. A importância do sujeito era tamanha a ponto do cartaz anunciar "Irving Berlin's Easter Parade"! Não à toa: o filme foi todo escrito com base nas músicas já existentes desse gênio, que viria a morrer com a bagatela de 101 anos em 1989. Ou seja, quando eu via o filme na Manchete em 1987, o sujeito continuava vivo!

O esquema era o seguinte: na era da TV aberta, quando TV a cabo era algo que só chegava ao conhecimento dos brasileiros através de menções incompreensíveis em filmes hollywoodianos ("TV com cem canais? Rá rá, que bizarro"), a saudosíssima Manchete, entre 1986 e 1988 (ou talvez além disso, mas não acompanhei depois), tinha uma das raras sessões legendadas na telinha. Todo sábado à noite. Assim tipo umas onze horas, se não me engano.

Desgraçadamente não consigo lembrar o nome da sessão, mas as legendas eram inesquecíveis. Brancas, sem qualquer espécie de sombra, com uma fonte pequenininha e esquisitíssima, direto na tela. E com um detalhe agoniante pra quem precisava delas: a cada fala, as letras da legenda iam aparecendo uma após a outra na tela até completarem o texto da fala. E em seguida desapareciam todas de uma vez. E em seguida voltavam de novo, no mesmo esquema, uma por uma. Claro que elas apareciam em alta velocidade pra dar tempo de terminar a fala antes que chegasse outra. Ainda assim, era mais devagar que a sua velocidade de leitura. Ou seja, existiam décimos de segundos de diferença entre você terminar de ler e as próximas letras aparecerem. O que, obviamente, atrasava a leitura e prejudicava a absorção do filme.

Mas era o máximo. Meu pai anunciava solenemente, entre risos: "Hoje tem de novo 'Easter Parade'! Com som 'óriginálvel' e legendasss!" E começava a cantar, imitando primeiro o Fred Astaire e depois o Al Jolson (que não aparece no filme): "And my heart beat faaast... / As I came through the door / Fooooor (aí começava o Al Jolson): In your Easter bonneeet / With all those frills upon iiiiit / You'll be the grandest lady / In the Easter parade / I'll be all in clawvaaah / And when they look us ovaaah / We'll be the grandest couple / In the Easter / P'RAAAADE!" (notem que não é necessariamente esta a letra. Era só a maneira como meu pai cantava)

Ele gravava as músicas. Deixava o rádio-gravador do lado da TV e, quando começava o diálogo (que ele sabia de cor, ou quase) que dava início a uma música, pedia silêncio e começava a gravar. A fita ficava cheia de TEC no final das gravações, mas ele não se importava.

Eu sim.

Hoje me dou conta que é graças a isso que sempre me amarrei em edição de vídeo e som. Graças a esse ritual do papai, aos 11 anos eu comecei a gravar os últimos capítulos de todas as novelas em gravador (lá em casa o videocassete só chegou em 29/12/87). Só que um capítulo inteiro de novela não cabia nos 30 minutos da fita, e nem sempre minha mãe dava grana pra comprar uma fita de 90 minutos (além do quê, dizem que a de 90 fica apertada demais na bobina). Então eu fazia tudo pra suavizar o TEC e pra cortar as cenas de forma que quem ouvisse o capítulo conseguisse entender tudo como se estivesse assistindo na íntegra, pois o que fosse cortado não faria falta.

E como eu fazia isso? Via o último capítulo na sexta, decorava (nem pensava em anotar) os pontos onde poderia cortar, e no sábado lá ia eu pro lado da televisão, desesperado, pedindo silêncio pra todo mundo, numa tensão e atenção singulares. Ficava especialmente preocupado com o Ramiro, meu irmão, que chegou algumas vezes a me chantagear pra conseguir coisas que ele queria, ameaçando fazer barulho na hora de uma gravação minha. Mas em geral ele era tranqüilo. Minha avó talvez ficasse meio incomodada porque ela adorava comentar. Mas eu olhava pra ela com uma cara de censura e medo, e ela colaborava com meu esquema, ficando quietinha. Só às vezes, quando eu dava o stop, ela ouvia o TEC e movia os lábios perguntando se podia falar. E eu dizia que sim. Saudade dela. :)

A partir de 1987, eu comecei a fazer fitas de músicas saídas da TV, tipo meu pai. Mas pra não ter o TEC entre elas, eu entrava no banheiro e gravava um fundo sonoro neutro entre elas. Na época eu só chamava de "espaço" (ex.: "Mãe, faz silêncio que eu vou gravar um espaço"). Entrava no banheiro, dava stop no ponto exato onde ia gravar e gravava um "nada", cobrindo a abertura do microfone embutido. Via que ainda tinha sobrado um pouco do que eu queria desgravar, voltava a fita e dava outro stop um pouco antes. E assim por diante, até desgravar o último pentelhésimo sonoro que eu não queria, com cuidado cirúrgico pra não desgravar nem um segundo do final da música que vinha antes.

Só que, como eu tapava o microfone embutido pra gravar o espaço, o tal "fundo sonoro neutro" acabava saindo tipo um barulho muito parecido com a respiração do Darth Vader na hora em que ele expira - como se fosse uma expiração contínua (algo MEIO assim: "RÓÓÓÓÓÓÓÓÓÓ...")

E quais músicas eu gravava? Bem, lembro de uma fita TDK (era precioso ter uma TDK, eu contava nos dedos as minhas) que eu usei pra isso porque disseram que era um absurdo eu gravar vozes (que era o que eu mais fazia) numa fita de qualidade superior. Então lá fui eu gravar música. Só que do meu jeito: músicas do primeiro filme dos Muppets (morro de vergonha, mas gravei duas músicas dubladas); "Black Magic" cantada pelo Jerry Lewis em "O Professor Aloprado"; "We Don't Have to Work", pelos três ratinhos que se fingiam de cegos naquele desenho dos anos 40 que acho que era da Looney Tunes; "Guaraná-Antarctica-é-puro-e-natural, puro-guaraná-Antarctica-que-é-puro-e-natural!"; trilha do comercial do Villejack Jeans; e por aí ia.

E foi assim, graças à páscoa, que eu nutri e formei um dos meus sonhos profissionais que vão se acumulando: trabalhar com montagem de som ou imagem, em cinema. Mas até hoje, acabei nunca concretizando. Acho que é porque eu não ia querer nenhum diretor mandando em mim. Muito pelo contrário. :D

Postado por Luiz com Z em 7:36 PM

Eu quero falar:


4.3.06


MUITO ALÉM DO BALÃO - 60 ANOS DE EDGARD POÇAS


PARTE 2 - O ANIVERSARIANTE


Chegou o grande dia do sessentenário desse músico tão recluso quanto produtivo que entupiu nossa infância de bom gosto e continua fazendo o mesmo nos CDs de música clássica para crianças, trilhas e jingles que funcionam como um oásis melódico nessa TV aberta tão degradada pelas rajadas da guerra de audiência.

E pra homenagear o aniversariante, nada como uma versão da versão. Parabéns, maestro. :)


DIA DE EDGARD
(Luiz Alberto Benevides, 3/3/06,
versão de "Dia dos Pais", letra de Edgard Poças, 1984, que é
versão de "Mi Amigo Félix", de F. Don Diego e A. Araújo, 1980)

Uma batuta me acordou cedinho
Me cutucando pra eu olhar o sol.
Abriu a porta e me deixou ceguinho
Com a luz que entrava em tom de ré bemol.

Um sol tão lindo com todas as notas,
Até as desprezadas pelo Bach.
E uma maestrinho dando cambalhotas,
Berrando "Feliz dia do Edgard!"

Dá-lhe, maestro,
Eu queria tocar,
Não sou tão destro,
Mal consigo cantar.

O jeito é um verso
Pra botar no lugar,
Ficando imerso
No coral do Edgard.

O povo pensa que ele acabou fondo,
Tipo um balão que se soltou no céu.
Não pode haver engano mais redondo,
É mais plausível ver Papai Noel.

Enciclopédia aberta o ano inteiro,
Mesmo reclusa em seu jardim de som.
Viva metáfora do brasileiro
Que a mídia esconde porque é muito bom.

Bravo, maestro
Que não cansa jamais,
O resto é resto,
Mas você é demais.

Eu só queria
Te parabenizar
Mas todo dia
É dia de Edgard.

Bravo, maestro
Que não cansa jamais,
O resto é resto,
Mas você é demais.

Eu só queria
Te parabenizar
Mas todo dia
É dia de Edgard...

(fade-out)

Postado por Luiz com Z em 2:54 PM

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